CRÔNICA – AÇÕES EM QUEDA E UM TAXISTA DESESPERADO

Segunda-feira, 12h30.
As ações na Bovespa estão derretendo. Chamo um táxi para me levar à Bolsa de Valores no centro de São Paulo. Dia feio, chuvoso.
Quando desço para pegar o táxi descubro que ele, gentilmente, sem que tivesse sido solicitado, entrou na garagem, para eu não me molhar. Seguimos para a Bolsa, conversando amenidades. Reclamo que a cooperativa onde ele trabalha demorou para enviar um táxi e ele defende a empresa dizendo que a culpa é da chuva, que atrapalha o trânsito e dificulta o deslocamento dos táxis. Mudamos de assunto.
Falo que estou indo fazer uma reportagem sobre a crise no mercado de ações, mas ele não se interessa muito. Conversamos, então, sobre GPS – e esse assunto o anima. Ele me conta que a cooperativa onde trabalha vai instalar um equipamento moderno em todos os carros, o que vai facilitar muito o serviço. O sistema vai permitir localizar a posição exata de cada taxista no momento em que ocorrer uma chamada. Se o cara recusar uma corrida, vai ter que se explicar, me diz.
Passamos pela Avenida Paulista e começamos a descer a Consolação em direção à Bolsa quando toca o seu celular. Percebo que a notícia que ele recebe é grave. Desliga abalado e me conta. Era o irmão de sua namorada, informando que ela teve uma convulsão no trabalho. Ele me conta que a namorada sofre de epilepsia. Pergunto se ela não toma remédio. Ele diz: esse é o problema. Ela não gosta de tomar o remédio, pois ele é incompatível com o uso de bebidas alcoólicas. Prefere ir na balada, lamenta. O taxista telefona para o trabalho da namorada. Informa ao colega dela que está indo para lá, para buscá-la e levá-la ao médico. Em seguida, ensina como o rapaz deve proceder neste momento de crise. Coloca ela deitada de lado, explica. Toma cuidado para ela não enrolar a língua nem engolir a baba. Limpa a babinha dela, diz, recorrendo ao diminutivo, como se estivesse falando de um bebê.
Ele desliga o telefone e pede desculpas. Digo que não há motivos para desculpas e falo que ele pode me deixar no caminho, em qualquer lugar. Mas estamos realmente perto e ele diz que vai me deixar ao lado da Bolsa. De lá, em dez minutos, me informa, estará no escritório onde a namorada trabalha. Vou chamar ela na chincha, ele me diz. Se for o caso, eu também paro de beber na balada. Podemos ir na balada e não beber. Pergunto quantos anos ele tem. 24.
Esqueci de perguntar o seu nome. Pago o táxi, caminho 100 metros e entro na Bolsa. As ações estão derretendo. É a maior crise em muito tempo, talvez a maior crise de todos os tempos. Enquanto apurava a história para escrever uma reportagem, não pensei mais nele. Hoje, terça-feira, as ações continuam em queda, mas eu queria realmente saber o que aconteceu com o taxista e a sua namorada.

Texto de Mauricio Stycer
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